Reinventar-se: eis a chave para o real profissionalismo


Por Andréa Silva Rasga Ueda em 03/07/2019 | Comentários: 0

 

A busca em “subir” na carreira, muitas vezes conduzida de forma tradicional, por conta de toda a pressão social, familiar e educacional, nos leva, muitas vezes, a situações deletérias, onde nos deixamos levar por posições profissionais – os cargos – ou promessas de crescimento e empoderamento superficiais, que não condizem com nossa essência.

Em setembro de 2019 tive a grata oportunidade de participar de um excelente bate-papo a respeito do empoderamento feminino - e nada de aqui pensar, preconceituosamente, que foi um evento de um grupo de mulheres defendendo uma causa feminista extremista ou oposta à via do chamado machismo -, no qual diversos depoimentos foram dados, experiências de vidas compartilhadas, diferentes visões profissionais e de carreira apresentadas, mas, acima de tudo, apresentado de forma franca, realista, emocional e racional um universo de vivências, que me fizeram repensar minha própria trajetória.

Como disse, estamos acostumados a levar nossas carreiras (e, mais ainda, nossas vidas) de maneira linear, sem pensar em planos alternativos, porque justificamos que aquele caminho traçado era o correto à luz do que a sociedade nos vendeu, nossa família nos apresentou (e teceu expectativas) ou, pior, do que internalizamos por qualquer motivo como sendo o certo, o único, o verdadeiro.

Como foi dito no evento supracitado, temos que desconstruir para fazer dar certo: acreditar em nossos potenciais, acreditar em nossa essência, no que nos torna diferentes uns dos outros ou nos aproxima de quem nos faz bem, enfim, deixar estereótipos, preconceitos, certo ou errado, tradições impostas (não sou contra tradições, ok?) que não se afinam com sua vertente de vida. Seguir aquilo que acreditamos.

Enquanto profissional do Direito lido, diariamente, com um grande conflito: o Direito corre atrás da realidade, que é célere e não perdoa os retardatários, e exige constante atualização, mas não apenas de técnica (leis e regulamentos novos), e sim dos e sobre os fatos. Estão aí todos os novos projetos que mostram, por exemplo, a jurimetria como uma ferramenta muito útil para esse aprimoramento.

Tendo vivenciado uma carreira de 17 anos em escritórios e mais 12 em empresas, noto que as mudanças ocorridas foram muitas, mas ainda não tinham sido tão dinâmicas. Hoje, a realidade é outra: quem não se reinventa, em especial no dia a dia do Direito, ficará para trás. E aqui, quando falo isso, mais do que os temas e a forma de usar e aplicar leis e regulamentos para fazer instrumentos jurídicos e criar uma operação de mercado, por exemplo, mudanças comportamentais e de gestão humana são imprescindíveis.

A cultura do “manda quem pode obedece quem tem juízo”; do uso autoritário do poder; do temor reverencial em razão do cargo e da hierarquia; do não poder ser contrariado, em suma, do de gerir pelo medo deve desaparecer; não se sustenta em uma verdadeira corporação em que a boa governança corporativa prevalece.

Os “chefes” devem desaparecer dando lugar para os gestores de pessoas e processos e os líderes. Não há mais como ter uma estrutura corporativa com cabeças no topo que se portam como caciques, querendo impor suas vontades.

A reinvenção na liderança ou gestão de departamentos jurídicos, a depender do que se necessita no momento, perpassa, em qualquer situação corporativa, pela redução do poder pelo poder e incremento do empoderamento de suas equipes, fazendo com que saibam aonde querem chegar por meio de desafios constantes.

E, para isso, importante que os altos executivos deixem de lado a ideia mesquinha de que contrato pessoas de talento para mandar fazerem o que eu quero, e passem a internalizar a ideia de que contrato tais pessoas para que elas me ajudem a dizer o que e como de melhor devemos fazer para crescer.

Fuja da mesmice, do tradicionalismo da forma de “mando” e da imposição de ideias de cima para baixo: saiba ouvir, compartir, receber feedbacks negativos, empoderar seus subordinados, focando no lado humano de cada um, sem perder a dimensão profissional.

Reinvente-se, gestor e líder jurídico, ou sua autonomia e gestão/liderança serão questionados e afrontados constantemente, desestabilizando as pessoas, as equipes e, mais, a corporação como um todo.

 

(Artigo publicado originalmente na minha página no LinkedIn, em 27.09.2018)

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Sobre o autor

Andréa Silva Rasga Ueda

Bacharel (1993), Mestre em Direito Civil (2009) e Doutora em Direito Civil (2015), todas pela USP, atuando como advogada desde 1994, tendo atuado até 2006 em escritórios próprio e de terceiros (médio e grande portes), com grande experiência no consultivo e contencioso civil (especialmente em contratos), comercial, societário (elaboração de atos societários de Ltdas. e S.As, de capital aberto e fechado; participação em M&A, IPOs, Private Placement), bem como em transações imobiliárias e questões envolvendo mercado de capitais e compliance. De 2007 até 2018 criei e gerenciei departamentos jurídicos de empresas nacionais e transnacionais. Atualmente atuo como consultora jurídica corporativa e como diretora jurídica na startup de geração distribuída Sunalizer, com atuação nacional e internacional. Forte experiência no regulatório de energia e GD, de 2007 a 2012 e 2018-atualmente, de mercado de capitais e de construção de torres para suporte às antenas de empresas de telecomunicações (desde 2013). Professora da Escola Superior da Advocacia (ESA-SP), entre 2001 e 2002, na matéria de Prática em Processo Civil, bem como assistente de professor na matéria Direito Privado I e II, na Faculdade de Direito da USP, durante o ano de 2007. Especializações: Consultivo civil/empresarial (Contratos) e societário; M&A e atuação em estruturações de operações financeiras; mercado de capitais; regulatório de energia e telecomunicações. Meu site é: deaalex.wordpress.com. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/6450080476147839


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