A proximidade entre o gestor e a sua equipe jurídica


Por Andréa Silva Rasga Ueda em 07/06/2019 | Comentários: 0

 

Já escrevi a respeito da capacidade de o gestor saber lidar com o seu lado educacional perante sua equipe, bem como do fator exemplificativo de suas atitudes, mas creio que um ponto que acaba sendo menosprezado no dia a dia corporativo é a presença física desse gestor junto à sua equipe.

E isso se faz sentir justamente em razão das questões de espaço que hoje as corporações, cada vez mais, buscam formular de maneira a criarem o chamado “escritório aberto”, um conceito que, a priori, é interessante, mas que, para um jurídico corporativo pode se mostrar mais um elemento de desagregação ou de perturbação dentro da equipe.

Por meio desse conceito de arquitetura de interiores, os departamentos jurídicos, como os demais da corporação, ficam alocados em espaços sem barreiras físicas (sem paredes, divisórias), não havendo salas fechadas, muitas vezes, sequer para os diretores.

Sob uma ótica atual, de interligação entre equipes, acho ótimo: facilita e agiliza o contato e o diálogo entre as pessoas dos diferentes departamentos, o que abre mais espaço para que o jurídico se aproxime mais de seus clientes internos, rompendo as barreiras tradicionais entre advogados e os demais funcionários.

Essa ausência de fronteiras físicas é um facilitador para que os advogados corporativos se tornem mais proativos, ágeis, preventivos quanto aos mais diversos temas, enfim, estejam mais “à mão” dos clientes - o que é bom e ruim ao mesmo tempo.

Contudo, o outro lado desse aparente solucionador de questões de comunicação é a ausência de constante privacidade que, no geral, o jurídico corporativo precisa ter, simplesmente porque tem acesso a todos os tipos de temas da corporação (desde os mais corriqueiros até os mais sigilosos), bem como são demandados para pensar e escrever, dia após dia, o que, no geral, requer certa concentração.

Assim, sem desmerecer qualquer outra profissão dentro das corporações, os raciocínios e as tarefas jurídicas, no geral, sofrem um pouco mais com as conversas paralelas que ocorrem nos espaços abertos.

Tudo bem que criam pequenas salas para que as pessoas se policiem para fazer reuniões e conversas dentro das mesmas, deixando o espaço aberto livre de conversas. Mas, por mais que as pessoas tentem se policiar, é humanamente impossível o silêncio sepulcral.

Independentemente desse fator de escritório aberto e departamentos jurídicos expostos, o que não é o tema central para se refletir neste texto, ele serve para ilustrar o foco deste artigo: a presença do gestor jurídico junto à sua equipe. Nesse ponto, entendo que esse conceito de design de interior facilita e otimiza essa proximidade. Mas, como sempre, há gestores que não sabem se aproveitar disso.

Por um lado, há os que entendem que essa aproximação serve para ficar de olho nos advogados, como se fossem um grupo de crianças na sala de aula, prestes a fazer algazarra e, portanto, passam a ser o gestor chato, que bloqueia os atos mais proativos de seus advogados, que impede a pausa para um café ou para uma conversa mais produtiva enquanto quebra de rotina, que amedronta pelo olhar.

Por outro, há os que, ao contrário, querem ser legais, se enturmar com a equipe, e se portam, justamente, como se estivessem no jardim da infância: deixam a equipe sem foco, acreditando que podem ficar falando alto, ou sem fazer nada, olhando as mídias digitais, navegando pela Internet, ou, então, fazendo os trabalhos na hora que julgarem mais adequado, em suma, são colegas de trabalho dos seus advogados e só sabem gerir, igualmente, pela imposição do poder hierárquico quando este se faz necessário para que o próprio gestor se prove e se lembre que deveria ser um gestor...

E, para não me delongar, destaco a figura mais complicada, que, muitas vezes, é representada pelo diretor, que pode ou não ter sala nesse conceito de “escritório aberto”: a do gestor jurídico que sequer sabe o que cada um dos advogados faz, como faz, se faz, de onde faz...a ausência é flagrante, todos os advogados da equipe sentem, notam, mas nada falam.

É o gestor jurídico mais deletério, no meu sentir: mostra pela ausência em se aprofundar em quem realmente é cada um de seus advogados (seus gostos, suas vocações, seus interesses, possíveis sugestões e ideias de mudanças ou de melhorias ou de novos negócios) que não é um real gestor e, pior, não é e sequer será líder, pois a liderança exige conhecer seus liderados.

Independentemente do estilo de arquitetura do local de trabalho - com divisões físicas ou não -, o gestor jurídico deve manter contato visual e verbal com seus geridos. E isso não exige estar na mesma sala, ou em sala próxima, mas, sim, a simples vontade e a real atitude de querer conhecer sua equipe.

Aproxime-se de sua equipe! Torne um hábito as conversas e não espere as sessões de avaliações para preenchimento do programa matemático de metas da corporação. Não somos máquinas e as equipes não são compostas por seres domesticados batedores de carimbo, digitadores de dados e arquivadores de documentos. Se for isso, já estamos sendo substituídos por robôs...

 

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Sobre o autor

Andréa Silva Rasga Ueda

Bacharel (1993), Mestre em Direito Civil (2009) e Doutora em Direito Civil (2015), todas pela USP, atuando como advogada desde 1994, tendo atuado até 2006 em escritórios próprio e de terceiros (médio e grande portes), com grande experiência no consultivo e contencioso civil (especialmente em contratos), comercial, societário (elaboração de atos societários de Ltdas. e S.As, de capital aberto e fechado; participação em M&A, IPOs, Private Placement), bem como em transações imobiliárias e questões envolvendo mercado de capitais e compliance. De 2007 até 2018 criei e gerenciei departamentos jurídicos de empresas nacionais e transnacionais. Atualmente atuo como consultora jurídica corporativa e como diretora jurídica na startup de geração distribuída Sunalizer, com atuação nacional e internacional. Forte experiência no regulatório de energia e GD, de 2007 a 2012 e 2018-atualmente, de mercado de capitais e de construção de torres para suporte às antenas de empresas de telecomunicações (desde 2013). Professora da Escola Superior da Advocacia (ESA-SP), entre 2001 e 2002, na matéria de Prática em Processo Civil, bem como assistente de professor na matéria Direito Privado I e II, na Faculdade de Direito da USP, durante o ano de 2007. Especializações: Consultivo civil/empresarial (Contratos) e societário; M&A e atuação em estruturações de operações financeiras; mercado de capitais; regulatório de energia e telecomunicações. Meu site é: deaalex.wordpress.com. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/6450080476147839


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