Levanta Brasil. Fica de pé!

Texto retrata o contexto e as características dos movimentos populares que se espalham por todo o Brasil ao longo Copa das Confederações


Por Renata de Lima Rodrigues em 22/06/2013 | Comentários: 1

Desde que a onda de manifestações começou pelo Brasil afora, experimentamos uma série de sensações inusitadas, desde a incompreensão acerca do que está acontecendo até a adesão incondicional ou repúdio aos movimentos.  

As manifestações organizadas pelo Movimento Passe Livre, em um momento propício como a Copa da Confederações,  catalisaram  um furacão de indignações populares que se misturaram e ecoaram por todo os país de uma forma absolutamente inusitada e exponencial.

Já ouvimos todas as críticas possíveis: o movimento não tem líderes e é desorganizado; não tem uma agenda, nem uma pauta de reivindicações. Luta-se pelo quê, afinal de contas? Já ouvimos teses e teorias da conspiração tão bem arquitetadas que até Hitler teria se orgulhado em tê-las idealizado.  Ouve-se que há um risco de retorno a ditadura, de um golpe de Estado, de que uma vertente fascista irá se instalar nesse país, porque a voz popular será apropriada por algum líder carismático, que manipulará toda indignação, ufanismo e sede de mudanças em proveito de ideais totalitaristas e autoritários.

Há muitos riscos. De fato.  

A democracia é um risco. Ela é arriscada porque dá voz até para aqueles que desejam usar suas vozes contra a democracia. E para que ela assim seja, não há dúvidas, todas as vozes DEVEM ser livres para ecoar.

Viva a democracia, a liberdade de ir e vir, a liberdade de expressão. Muito se lutou pra conquistar tais prerrogativas, as quais, só agora, no momento de luta, parecem ter assumido algum significado pra atual geração que cresceu alienada numa bolha de coca-cola. Geração coca-cola (Ouvi dizer, no facebook, que colocaram um Menthos na geração Coca-cola e deu no que deu...).

Mas a pergunta persiste: Luta-se pelo quê? 

Luta-se por tudo.

É justa a luta de um povo que em sua maioria é e sempre foi absolutamente alijado de todas e quaisquer iguais oportunidades; um povo que adoece e não tem onde se tratar; um povo que está morrendo e padecendo com a pobreza, o descaso e o abandono; que não tem recursos para educar seus filhos e nem tem acesso à educação pública de qualidade;que trabalha o ano inteiro e não tem condições de trocar o carro, comprar uma casa digna, descansar ou viajar com sua família, sem vender a alma pro diabo, financiando-a em prestações que perduram pela eternidade.

 O brasileiro, que saiu do coma há mais ou menos uns 10 dias, parece ter acordado como alguém que viu a luz no fim do túnel, como alguém que foi agraciado com um sopro de vida e recebeu uma segunda chance, e agora deseja viver de forma digna, de imediato, pra ontem, tudo o que não viveu em 500 anos de existência. 

Já vimos bandeiras que contestam projetos de lei absurdos como o Estatuto do Nascituro ou o Projeto da Cura gay. Bandeiras que lutam contra a PEC n. 33 e a PEC n. 37. Qual a mensagem? Poder Legislativo você não nos representa!

Vimos ainda bandeiras contra o (mal)uso do dinheiro público. Há arenas e estádios padrão FIFA e hospitais, escolas, estradas e infraestrutura padrão Uganda. Qual a mensagem? Poder Executivo você não nos representa!

Vimos bandeiras contra a impunidade, pleiteando o combate sistemático à corrupção. Qual a mensagem? Poder Judiciário você não nos representa.

Qual a dificuldade em entender a voz do povo brasileiro? O problema não é a falta de bandeiras, mas o fato de que muitas são as bandeiras. E todas elas podem ser assim resumidas: estamos insatisfeitos com o modo de se fazer política nesse país, com o modo de gerir a coisa pública e com o padrão de vida que nos é imposto pela ineficiência e pela corrupção. 

Queremos reforma política, reforma tributária, reforma previdenciária. Queremos que o Congresso Nacional pare de perder seu tempo discutindo “cura gay” e “bolsa estupro”, violando a dignidade humana alheia, a liberdade e a igualdade, e ponha em pauta as reformas política, tributária e previdenciária. Pra ontem.

As redes sociais deram voz e poder de organização para os manifestantes de uma forma absolutamente inusitada.  Não adianta querer enquadrar este movimento nos moldes de movimentos passados, para tentar extrair alguma conclusão, alguma liderança e algum efeito concreto. O movimento pensa fora da caixa. O Governo vai ter que fazer o mesmo, se quiser nos representar.

Até mais. Fui pra rua.

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Sobre o autor

Renata de Lima Rodrigues

Doutoranda em Direito Privado e Mestre em Direito Privado pela Pontifícia Uiversidade católica de Minas Gerais - PUC/Minas (2007), Especialista em Direito Civil pelo IEC-PUC/Minas (2004), Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2001). Professora de Direito Civil em cursos de graduação, pós-graduação e cursos preparatórios para concursos em Belo Horizonte, com ênfase nas disciplinas Fundamentos constitucionais do Direito Privado, Teoria Geral do Direito Privado, Direito das Famílias, Direito das Sucessões e Biodireito. Pesquisadora atuante em grupos de pesquisa na PUC/Minas sob a orientação da Profª Marinella Machado Araújo. Membro do NUJUP/OPUR. Membro do IBDFAM. Advogada


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Comentários 1
RENATA DE LIMA RODRIGUES
Nunca imaginei, sinceramente, que fosse viver pra ver isso. Comunidades carentes "sem voz" e "sem representação", "sem cultura" e "sem noção", organizaram-se politicamente, têm uma bandeira definida e foram às ruas, em paz, pedir por saúde e saneamento.

Eles têm uma bandeira e uma reivindicação definida! Eles desceram o morro, porque se sentem cidadãos! E eles querem mais... do que pão e circo.

As manifestações têm que acabar. Chega. Mas ver isso me dá um sopro de esperança genuína de que amanhã vai ser melhor...

Podem me chamar de idealista ou ingênua. Mas há algo de bom no ar.

Concentremos nisso. No bom, no certo, na evolução.

Amanhã, vai ser melhor...

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/06/rocinha-e-vidigal-marcharam-em-paz-ate-o-leblon-por-saneamento-e-saude.html

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