Comunicação Positiva na Advocacia


Por Thaiza Vitoria em 26/03/2019 | Comentários: 1

O CED trata do tema "urbanidade" de modo particular nos artigos 44 e 45.

Art. 44: "Deve o advogado tratar o público, os colegas, as autoridades e os funcionários do Juízo com respeito, discrição e independência, exigindo igual tratamento e zelando pelas prerrogativas a que tem direito".
Art. 45: "Impõe-se ao advogado lhaneza, emprego de linguagem escorreita e polida, esmero e disciplina na execução dos serviços".

O Código de Ética Profissional anterior, no nº V, seção III, já determinava que o advogado deveria manter "em todo o curso da causa, perfeita cortesia em relação ao colega ex-adverso, e evitará fazer-lhe alusões pessoais".

O antigo Regulamento da OAB, considerava, no art. 27, nº III, como infração disciplinar, "faltar, de modo inequívoco e injustificado, aos deveres de confraternidade com os demais colegas".

Na contemporaneidade, os advogados assumem múltiplas funções e seu cotidiano se configura como um verdadeiro malabarismo sem fim. Muitas vezes, a rotina apresenta dificuldades de ordem relacional, e isso decorre principalmente dos ruídos na comunicação.

Percebemos que mesmo depois de milhares de anos de fala, a maioria das pessoas ainda não domina a boa comunicação.

Sim, porque muitas vezes o que dizemos não é o que realmente queremos dizer, e os conflitos nascem justamente dessa dificuldade de se fazer compreender e de compreender o outro.

Mas, felizmente, há solução para tudo isso, e uma delas é a ferramenta Comunicação Positiva, uma metodologia que apresenta técnicas de comunicação não violenta e coaching jurídico para aprimorar os relacionamentos em geral.

Todo raciocínio parte de um ponto: todos os seres humanos possuem necessidades e ninguém diverge disso. É humano desejar.

A oposição entre as pessoas começa na discordância entre o que é interpretação do que é fato, também no momento da escolha das estratégias para o atendimento das próprias necessidades, e por fim, na inabilidade em construir pedidos assertivos.

Uma comunicação truncada gera emaranhamento nos relacionamentos e ainda sobrecarrega a rotina, gerando stress e muitas vezes, depressão.

Em resumo, a Comunicação Positiva distingue observações de juízos de valor; sentimentos de opiniões; necessidades de suas estratégias; pedidos de exigências e perguntas de afirmações.

Estamos tão presos à necessidade de agilidade, imersos em prazos fatais, sufocados pelas prioridades, que não enxergamos o quanto a nossa comunicação é superficial, e muitas vezes, insensível.

Essa insensibilidade muitas vezes é permeada por gracejos e sarcasmos, que guardam ou destilam, na essência, um encanto perverso.

O mestre Nelson Hungria (in"Comentários do Código Penal") bem lembrou que “uma coisa é gracejar outra é ridicularizar”.

A ironia, ainda que graciosa, e com candura, costuma mascarar a comunicação negativa, e isso é muito comum nos discursos juridicos.

O advogado, cuja ferramenta básica de trabalho é a palavra, precisa saber distinguir o que seja o seu direito de voz ao seu cliente, dos gracejos, ironias e cinismo.

Comunicação Positiva é um instrumento para aprimorar os relacionamentos pessoais e profissionais. É um método de resolução de conflitos, mas não só isso, ele encoraja seus praticantes a se conhecerem mais profundamente.

comunicação negativa, por sua vez, é aquela que nos desconecta do outro, onde quem ganha a cena são os nossos pensamentos moralistas, julgamentos reducionistas, sempre no jogo ganha-perde, e como resultado da sua prática, temos a desconexão e o descontentamento.

O art. 15 do CPC nos revela o cuidado com a comunicação negativa, ao dispor:

É defeso às partes e seus advogados empregar expressões injuriosas nos escritos apresentados no processo, cabendo ao Juiz, de ofício ou a requerimento do ofendido, mandar riscá-las.
Parágrafo único: Quando as expressões injuriosas forem proferidas em defesa oral, o Juiz advertirá o advogado que não as use, sob pena de lhe ser cassada a palavra.

A comunicação negativa se equipara às palavras aviltantes e de insultos. As palavras, escritas ou orais, devem se compatibilizar com a linguagem do estilo discreto e solene, ou seja, positiva. A utilização das expressões injuriosas no processo se equipara àqueles atos atentatórios à dignidade da Justiça, mencionados no artigo 600 do CPC.

Ao contrário da comunicação negativa, a Comunicação Positiva, se baseia em habilidades de linguagem que fortalecem a generosidade humana, mesmo em condições adversas, nos ajudando a reformular a maneira pela qual nos expressamos e ouvimos os outros.

Em vez de sermos reativos (cuspir fogo) ou falsearmos a verdade (engolir sapo), criamos respostas conscientes, embasadas na clareza do que estamos percebendo, sentindo e desejando.

O Direito existe, à evidência, para possibilitar a harmonia e a paz sociais. Ele intermedia as forças entre os homens e seus interesses. A comunicação no Direito constitui uma das principais engrenagens deste mecanismo pacificador.

Entre o comedimento e a liberdade de expressão há uma linha limítrofe que precisamos examinar com cuidado. As palavras governam o mundo. Trazem a paz ou instigam as guerras. Escritas ou orais são armas insubstituíveis com que o advogado realiza sua função nesse mundo. Nossas ferramentas – lembrou Carnelutti – não são mais que palavras.

A Comunicação Positiva trata-se, portanto, de uma abordagem que se aplica de maneira eficaz a todos os níveis de comunicação e a diversas dinâmicas relacionais: com filhos, companheiros, alunos, amigos, colegas de trabalho, clientes, colaboradores, parentes, sócios e na resolução de conflitos.

E ainda podemos aplicar nos seguintes cenários:

Autogestão: Nessa área aprenderemos a desenvolver uma expressão mais honesta sobre quem somos, através do autoconhecimento, aumentando as chances de sermos compreendidos e respeitados em nossas relações, sem usar da manipulação ou violar a nossa essência.

Nos relacionamentos o método capacitará o leitor a ouvir com empatia, fazer observações sem julgamento, identificar e expressar emoções e sentimentos, descobrir as necessidades atendidas e não atendidas do interlocutor, e formular pedidos de forma objetiva, gerando muito mais harmonia nas interações.

Essa metodologia aplicada ao marketing jurídico é capaz de gerar aproximação com os clientes sob a perspectiva das suas necessidades, e não apenas da área do direito em que o seu caso se enquadra.

E finalmente, na gestão de conflitos, a Comunicação Positiva agrega valor nos cenários de conciliações, arbitragens, mediações e núcleos colaborativos.

Comunicação Positiva é muito mais que uma ferramenta, é uma filosofia de humanização que pode trazer benefícios para todas as áreas da nossa vida.

E como fazer isso funcionar?

Comece respondendo essa simples pergunta:

Você já "engoliu sapo
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Sobre o autor

Thaiza Vitoria

Especialista em inteligência emocional, advogada e Master Coach, tem dedicado os últimos 10 anos ao desenvolvimento de métodos que ajudam os advogados a atingirem o máximo de potencial em sua atuação. Já treinou pessoalmente mais de 90.000 advogados e alcançou a marca de 5.380 horas em atendimentos individuais de coaching jurídico.


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Comentários 1
EMANUELLE MENDES DE ASSIS
Interessante artigo. Nos dias atuais nos falta lhaneza em tudo.

Podemos mudar a visão do engolir sapo, e simplificamos, pois o sapo não e nosso, e sim de que o fez. Logo não há necessidade de engolir. Simplesmente transformá-lo em borboleta e deixá-la ir. Isso fará as relações interpessoais mais leve e belas.


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