Crônica do corona, em três instantes: no alpendre da casa da esquina, na padaria e no ônibus


Por Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas em 01/10/2020 | Sociologia | Comentários: 0

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NO ALPENDRE DA CASA:

No alpendre da casa da esquina, tem um papagaio, quem passa pela rua, a ave grita: "fica em casa".

O pássaro falante, segundo o seu dono, de tanto ouvir na tv sobre a quarentena, aprendeu a dizer a frase, hoje, um mantra: "fica em casa!"

O caso viralizou e quem mora na região, quando vai ao supermercado, ali perto, faz questão de passar naquela esquina para ver o papagaio alertar: " fica em casa!"

A cena tomou tal vulto que nas redes sociais só se postava isso.

A casa da esquina passou a ser uma atração. Todos queriam ver e ouvir o papagaio dizer a famosa frase.

O número cada vez crescente de pessoas que por ali passavam chamou a atenção das autoridades da prefeitura local e os transeuntes foram convidados a não transitar pelo local, pois comprometeriam as medidas tomadas para conter a pandemia.

Aos pouco os pedestres foram se afastando, mas alguns que pelo lugar passavam, faziam questão de tirar fotos e filmar aquele papagaio que incansavelmente repetia, a todo o instante: “fica em casa!”

Quem diria que uma ave fosse contribuir com os humanos, alertando-os para que ficassem em casa para não se contaminarem, comprometendo a própria vida.

Que exemplo eloquente da natureza, de colaboração. Todos os seres deverão fazer a sua parte para que o ambiente em que vivemos seja um oásis de paz.

Vivemos neste Planeta que é a nossa casa e os seres que nele habitam, cada um, tem uma missão a cumprir, contribuindo para a sua preservação, permitindo que vivamos felizes nesta Terra.

“Fica em casa” é o lema que restará dessa quarentena, lembrando que essa “casa” há de ser o refúgio e o nosso porto seguro, lugar em que encontraremos o necessário para repormos as energias despendidas na luta diária pela vida e por nossa subsistência.

No futuro, passada essa onda dramática, iremos nos recordar daquele papagaio da casa da esquina que, incansavelmente, avisava a todos que circulavam por aquela rua para ficarem em casa, preservando a saúde e cuidando para que o Coronavirus não disseminasse, contagiando a muitos humanos.

Esse animalzinho de penas, que imita a voz humana, nos deixou um lindo exemplo de persistência, mostrando a nós que podemos com os recurso que contamos, por pequenos que sejam, possamos servir aos demais, para o bem de todos, sem distinção. Essa ave, com as cores de nossa bandeira, fez com sua voz, o bem sem olhar a quem. Que belo exemplo a seguir!

***

NA PADARIA:

Ontem, à tarde, subi a rua pra comprar o pão e me encontrei com Seu José, idoso, morador do bairro, parado na esquina, indignado com o que viu no interior da padaria.

Bravejava, gritando aos quatro ventos, que o estabelecimento estava afugentando os clientes, porque colocaram uma cordinha distanciando a pessoa do balcão, por conta do Corona.

Um vizinho tentou explicar ao Seu José que aquilo era pra proteger os clientes de contaminação, em época de pandemia, porque estamos todos em quarentena.

Nada do que foi dito, fez o nosso sexagenário se aquietar, continuou censurando a atitude da padaria, gritando: " não volto lá enquanto mantiverem a cordinha, separando a gente do balcão."

No dia seguinte, vi o velhinho na esquina espreitando quem passava em direção à padaria e resmungando: “vai até a cordinha?”

Que pena! O cidadão não entendeu os alertas das autoridades sobre os cuidados com a saúde, em tempos de pandemia.

Todas as tardes subo aquela rua para ir à padaria e não mais vi pelas imediações aquele senhor que não concordara com a “cordinha” no balcão do estabelecimento.

Fiquei a perguntar, o que pode ter acontecido àquele homem? Será que adoeceu?

Quando não compreendemos as coisas, as orientações, dificilmente nos adaptamos às novas situações que a vida nos apresenta.

Adaptar é uma forma de superar o infortúnio, o imprevisto. Quem não se adapta corre o risco de sucumbir.

A adaptação é uma lei. Ou se adapta ou não se adapta.

Passado alguns dias, lá estava o velhinho ranzinza, já mais calmo na esquina. Perguntei a ele o que havia ocorrido, tinha sentido a sua falta. Ele me respondeu que tinha ficado doente, mas por sorte não era a epidemia, tinha sido uma forte gripe.

Aliviado me disse que, agora, compreendia porque a “cordinha” estava separando os clientes da padaria do balcão e era muito grato àqueles que se preocupavam com a saúde e bem-estar dos idosos, principalmente.

Muitos ainda não se deram conta que numa quarentena a colaboração ajudar a todos a superar os momentos difíceis que devemos enfrentar, porque, em realidade, vivemos em sociedade e não estamos sozinhos neste Planeta. Uns dependem dos outros e todos nos ajudamos mutuamente. Os humanos não vivem isolados, vivemos em comunidade e num Mundo Global que é nossa “casa”.

Em tempos de pandemia “ficar em casa” é o que se deve fazer. Assim impediremos que esse inimigo invisível continue a contaminar a muitos. Que muitas “cordinhas” sejam colocadas em todos os cantos para distanciar esse inimigo invisível e destruidor.

***

NO ÔNIBUS:

Em tempos de quarentena, por força da pandemia do Coronavírus, o ônibus estava bem vazio, não passava de sete passageiros, cada um sentado confortavelmente nas poltronas do coletivo, muito diferente do que acontece em dias normais.

A moça ao celular falava com toda a naturalidade, sentada numa poltrona dentro do ônibus, à noitinha, alheia totalmente aos poucos passageiros que atentamente ouviam a conversa.

- Vó, sabe a calcinha, aquela que você me deu... estou usando... você não tem noção de como é confortável! Fabiana disse que é coisa de vó.

- estou Vó indo para casa, cansadíssima. Pela manhã dei aula particular para um aluno com dificuldades em matemática e à tarde tive que resolver um assunto no banco. Esse paradeiro está um sufoco.

E assim, seguiam todos ouvindo aquela moça conversando com sua vovó, durante um bom tempo, no trajeto daquela condução, se dirigindo do centro para o bairro.

Uma senhora idosa, ouvindo aquela conversa tão espontânea fazia cada expressão facial, ora de riso, ora de assombro entremeada com uma fisionomia de susto.

Alguns sorriam. Outros fingiam que não estavam ouvindo, mas era quase impossível, porque a menina se expressava num tom bem alto, talvez porque imaginava que a vovó, no outro lado da linha, não a estivesse ouvindo muito bem. E, por outro lado, o ônibus estava bem vazio.

Despediu-se da vó e fez, em seguida, outra ligação, agora, para a amiga íntima. Aquela que é companheira das confidências.

- querida, não acredito! Como ele pôde? É um mentiroso. Não te respeita. Você acreditou no que ele disse?

- amiga todos são assim. Não se preocupe, o tempo dirá o que você tem que fazer.

Alguns passageiros não se continham e até se inclinavam para a frente, a fim de ouvir melhor. Outros, pelas expressões do rosto, demonstravam que não estavam entendendo bem o que acontecia.

Finalmente, a garota deu o sinal e desceu com o celular ao ouvido e o que se passava do outro lado da linha ficou na imaginação dos ouvintes curiosos.

Como as pessoas se interessam por saber da intimidade de outras, como também há aquelas que facilmente expõem gratuitamente a sua intimidade, sem medir as consequências dessa atitude, muitas vezes por distração e, sem se dar conta, de que estão em um ambiente público!

A discrição é, em verdade, uma virtude que protege o ser de exposições desnecessárias e que garante a vida íntima da maldade alheia.

***

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Sobre o autor

Marco Aurélio Bicalho de Abreu Chagas

Advogado militante no Foro em Geral e nos Tribunais Superiores com mais de 40 anos de experiência. Assessor Jurídico na Associação Comercial e Empresarial de Minas - ACMinas desde 1980. Sócio Fundador do CUNHA PEREIRA & ABREU CHAGAS - Advogados Associados desde 1976. Consultor Home Office. Tributarista. Autor de vários livros na área. tributária. Conferencista. Professor.


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